Projeto & Ambientalismo

A perspectiva ambiental está profundamente relacionada com a trama político-social da nossa existência; tornou-se uma característica, uma propriedade penetrante da nossa vida diária, influenciando nosso julgamento, nossa posição moral, nosso conjunto de valores, nosso cotidiano. Mas com todas as suas implicações sociais fundamentais, a questão ambiental, mais do que conforto ou soluções imediatas, nos traz um conjunto de torturantes contradições e padrões de valores, exigindo de nós constantes e profundas reflexões.

Tendo-se tornado uma das preocupações primordiais da atualidade, é difícil precisar as origens da crise ambiental da atualidade, mas é obvio que a agressão ao meio-ambiente não começou com a Revolução Industrial do século XVIII, embora ela tenha indiscutivelmente agravado esses efeitos. Coloca-se inclusive que tal crise tenha suas raízes no movimento do Renascimento Científico dos séculos XV/XVI, origem para alguns de um modo mais mecanicista e anti-ecológico de ver o mundo.

O termo Ecologia - definido basicamente em meados do século XIX, dentro das ciências biológicas, como o estudo das relações entre os seres vivos e o meio-ambiente onde vivem, bem como suas mútuas influências - assume hoje conotações bastante diversas, sendo colocado dentro da sociedade contemporânea como uma forma de pensamento, uma filosofia politicamente atuante embora ainda assim apartidária.

Já no início do século XX a Ecologia dava demonstrações de sua força e papel político-social. Contrapondo os valores "ecológicos" do rural, local e natural aos conceitos do urbano, internacional e industrial em sua plataforma, o Partido Nacional Socialista alemão pode ser considerado como o primeiro partido "verde" da História, mostrando na época a maior proximidade da Ecologia com as forças de direita.

Essa afiliação política de alguns ecologistas no período entre-guerras pode-nos ajudar a entender porque durante tanto tempo o pensamento da sociedade moderna pareceu repudiar a questão ecológica, relegando-a quase ao esquecimento. A identificação que fazemos hoje em dia do ecologismo com as linhas de esquerda é devida à reemergência do pensamento como um movimento radicalmente alternativo e de oposição no final da década de 60.

Primeira grande manifestação do Ambientalismo, quando uma preocupação presente há muito tempo em muitas cabeças mostrou-se pela primeira vez como forte e significativo movimento político e social, o movimento dos anos 60 teve como característica principal a apresentação, a colocação para o mundo do tema Ecologia, retirando-o de círculos restritos. Por conseqüência houve uma procura e uma divulgação de informações bastante profundas sobre o assunto, não só para profissionais de diversas áreas - inclusive do design -, mas para o público em geral.

Suprida em parte a ausência e a carência de informações causada pelo virtual desconhecimento do assunto até então, os anos da década de 80 presenciaram o que seria a segunda grande manifestação ambientalista. Essa agora se preocupava, mais do que com a divulgação de informações, com a elaboração de teorias, políticas e práticas ambientalmente corretas, o que é em muito explicado pela percepção dos efeitos provenientes do descaso com o assunto vigente até então, tais como acidentes nucleares, poluição generalizada e descontrolada, aquecimento global, crise dos combustíveis fósseis e etc..

Levantando a bandeira do assim chamado "Desenvolvimento Sustentável" - caracterizado como a última de uma longa série de tentativas dos ambientalistas de atingirem um equilíbrio para o nosso mundo -, o movimento dos anos 80 faz um profundo questionamento do modelo de sociedade consumista adotado pelo mundo capitalista e do modelo industrial inconseqüente por ela gerado.

Popularizado, o conceito de "sustentabilidade" tornou-se a palavra de ordem dessa segunda onda ambientalista e causou o fenômeno do chamado "green design" - ou design verde. Embora esse "esverdeamento" seja considerado por muitos como simplesmente a aplicação de um conjunto de princípios ambientais na atividade de projetar, o "Desenvolvimento Sustentável" mais que isso traz desafios desconfortáveis e essenciais para a situação atual do designer.

"Igualdade", "Participação" e "Futuro" são componentes primordiais da "sustentabilidade" e nos colocam a importância de satisfazer as necessidades dos indivíduos e da coletividade, mas aceitando as limitações impostas pela tecnologia e pela organização social na capacidade do ambiente em suprir tais necessidades. Enfim, "Desenvolvimento Sustentável" pode ser definido como a forma de desenvolvimento que supre nossas necessidades presentes sem comprometer a capacidade do meio-ambiente de suprir as necessidades das gerações futuras.

Os anos 90, considerados como a terceira e maior manifestação do Ambientalismo até então, devem ser considerados mais como uma continuação do movimento dos anos 80. Ao invés de procurar novas orientações, o mérito dos anos 90 está em, mantendo as mesmas linhas de pensamento, transformar a questão ambiental numa realidade presente em todos os ramos da sociedade, e mais que isso, em torná-la uma das principais preocupações - senão a principal - da atualidade.

Nesse contexto, o "green design" - ou eco-design no jargão dos anos 90 - também começa a assumir um papel fundamental dentro do processo de recuperação e manutenção do meio-ambiente, tanto natural quanto urbano. Sua preocupação principal está relacionada com a responsabilidade do designer perante a sociedade, questionando a sua participação até agora na geração de uma obsolescência forçada e no projeto de produtos socialmente irresponsáveis, trazendo uma forte tônica moral e rejeitando os valores decadentes da sociedade consumista.

Apropriando-se não só dos aspectos técnicos mas também dos princípios políticos, o surgimento de uma nova ética ambiental implica no surgimento de uma nova ética de projeto. O inquestionável mérito do "eco-design" está em relacionar conceitos que colocam em xeque concepções sobre design, consumo e produção industrial que antes eram tomados como verdades absolutas, trazendo até nós modelos que poderiam ser chamados de uma sociedade pós-industrial.

Em contraste com a especialização, massificação, padronização e curta duração características dos produtos industriais, os produtos pós-industriais adotariam conceitos de generalidade, versatilidade, reparabilidade e longa durabilidade. Nesse modelo o processo projetual seria democrático e participativo, com o trabalho em equipes multidisciplinares de uma forma cooperativa e interativa. O design pós-industrial assumiria as formas do design socialmente e ambientalmente responsável.

Enfim, a atividade projetual hoje, para aqueles envolvidos com preocupações ambientais, tem que mostrar que faz mais do que meras alterações superficiais aos produtos. A demanda por produtos ecologicamente corretos proporciona ao designer um dos melhores dispositivos para realizar uma mudança efetiva: ajudar a indústria a passar de um modelo de produção inconseqüente para uma forma auto-sustentável e não comprometedora, lapidando as preferências do consumidor e mostrando-lhe a importância de sua participação.

 

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