Projeto & Produção

É indiscutível que o estilo de vida da sociedade moderna é reflexo direto das transformações acontecidas no mundo principalmente no século XIX – A mudança dos valores sobre a posse da terra como bem material, o sistema comercial evoluído do Mercantilismo, facilitando e agilizando a troca de mercadorias ao redor do mundo civilizado; e a divisão do trabalho implantada nas oficinas e artesanias possibilitando uma notável agilização na produção dos manufaturados.

Coroando todo o processo, como um desdobramento natural, a Revolução Industrial de 1850, com sua concentração urbana e sua nova estrutura social – não mais dividida nobres e plebeus com base na posse da terra, mas patrões e empregados classificados de acordo com seu poder aquisitivo – ergueu os pilares do mundo contemporâneo.

Pode-se dizer que foi nesse âmbito da Revolução Industrial que se consolidou a atividade de projeto. Na busca cada vez maior da redução de custos e do aumento da eficiência da linha de produção, era incompatível a manutenção de um sistema no qual objetos eram criados e modificados ao mesmo tempo em que eram produzidos, num ritual quase artístico onde o resultado final era, se não uma incógnita, um tanto quanto maleável.

Para as novas unidades produtivas, projetar, que na acepção mais apropriada significa planejar, tornou-se algo imprescindível para aqueles que pretendiam alcançar um objetivo com um controle sobre o processo quase absoluto. No entanto, mesmo antes do advento da indústria, na época das precursoras manufaturas, identificou-se um problema que afetava a qualidade dos produtos gerados: a distância entre projeto e produção.

Henry Cole foi o primeiro a identificar o afastamento entre as duas atividades complementares. Funcionário público do Governo inglês, Cole foi uma das forças motrizes para a realização da Grande Exposição de 1851, fundando em 1849 o "Journal of Design", que editado durante três anos servia como veículo para propagação e elaboração de suas idéias, partilhadas por muitos críticos da época.

Analisando a produção fabril inglesa tanto a nível de qualidade e funcionalidade quanto de ornamentação, Cole defendia nas páginas de seu tablóide que a atividade projetual só pode atingir sua plenitude se conduzida em estrita consonância com a teoria científica que rege a produção, quando a condição física dos materiais e os processo técnicos e econômicos da manufatura limitam e ditam as fronteiras dentro das quais a imaginação do designer (no sentido genérico daqueles que projetam) pode viajar.

Mas longe de intransponíveis, quem projeta deve toma-las como obstáculos a serem superados, seguindo suas condições. Metaforicamente falando: o homem superou a sua limitação de não poder voar por si só lançando mão de todos os dispositivos auxiliares para vôo que conhecemos hoje; é nessa capacidade de propor soluções que tornem possível o impossível que reside a essência das atividade de projeto – resolver problemas.

Sob esse ponto de vista, as considerações aqui tecidas são válidas para qualquer ramo de atividade que envolva alguma forma de produção: Design, Engenharia, Arquitetura, quer em larga escala quer na produção de uma obra prima. Tomada de forma mais ampla, essa busca incessante por soluções, como no modelo de conhecimento proposto por Platão, gera novos problemas que demandam novas soluções, num moto-contínuo que tem se mostrado ao longo dos séculos como a viga mestra de todo desenvolvimento científico e tecnológico da nossa civilização, baseado na troca entre os projetistas-designers e os produtores.

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